América Futebol Clube

América Futebol Clube - São José do Rio Preto

 
05/01/2014  »  "Corre pro meio-campo, safado!"
Corre que foi gol!!! Tá fazendo o que aí parado, porra??  
22/05/2013  » A epopéia de Itápolis
O América precisaria vencer o Oeste de Itápolis 
22/11/2013  » A marmelada
A expectativa era a de um jogaço 
27/05/2013  » A primeira tarde de um homem
Se arruma que hoje você vai comigo 
02/05/2014  » Alegrias e agruras de um torcedor de time pequeno
Porque torcer para time pequeno é... 
07/06/2015  » Anatomia de uma vitória
Com esse domingo maravilhoso terminando 
13/03/2014  » Da bebedeira ao pânico
“Tá vendo, Zé: beber demais pode te fazer mal aos dentes.. 
05/07/2015  » De pai para filha
"Hoje eu posso ir com você, né?". 
28/06/2015  » José Bonifácio 1x4 América - é o que tem pra hoje
Mas hoje foi para lavar a alma. 
09/12/2013  » Na estrada com o América - parte 1
“O senhor não pode fazer isso. Desça daí”.  
31/07/2013  » O garoto que entrou em campo
“Como é que é? Você vai entrar onde? E com quem?” 
08/04/2014  » Ossos duro de roer - parte 1
“Só faltava a gente perder de novo para o Taubaté hoje né, pai?” 
12/09/2013  » Praça de guerra
América e Rio Preto ficaram anos sem se enfrentar.  
25/01/2014  » Que golaço - parte 1
"Pinturas" maravilhosas perpetuadas por artistas vestindo o mais rubro dos mantos sagrados  
19/11/2013  » Rock and Roll
Exigir exclusividade de um moleque de 12 anos é covardia. 
 
Voltar ao Topo
Praça de guerra
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
 
 

Doze anos de “trégua” são suficientes para amenizar os nervos entre oponentes históricos?  Talvez.  Se forem nações vizinhas com bons diplomatas, é possível reatar antigas alianças.  Agora, se estamos falando de futebol e se esses oponentes são dois clubes de uma mesma cidade...  Esperar a paz é coisa de gente extremamente otimista. 

América e Rio Preto ficaram anos sem se enfrentar.  Desde que o América chegara pela segunda vez à primeira divisão do Campeonato Paulista (o acesso ocorreu no campeonato paulista da segunda divisão de 1963), ocorreu um “distanciamento” entre as equipes no que diz respeito a confrontos valendo por certames oficiais.  Isto porque o América permaneceu exatamente trinta e três anos na divisão máxima do futebol paulista, enquanto o Rio Preto, seu arquirrival, foi experimentar esse gosto por três meses somente em 2007.  Nesse período, normalmente, os derbys ocorriam apenas em datas comemorativas ou em torneios amistosos. 

Em 1985, porém, São José do Rio Preto viu suas duas agremiações montarem verdadeiros esquadrões.  O América, então comandado pelo técnico Urubatão Calvo Nunes, estava na primeira divisão.  O Rio Preto, dirigido pelo técnico Válter Zaparolli, estava na segunda divisão paulista.  Dois times realmente fortíssimos.  E, de maneira criativa, o maior grupo radiofônico da cidade, o Grupo Independência, da saudosa Rádio Independência, resolveu lançar a idéia de patrocinar naquele ano a realização de um derby, doze anos depois do último, ocorrido em 1973.  A idéia “pegou”.  ]

Só que essa tarefa não foi assim tão simples.  “Forças ocultas” dos dois lados tentaram a todo custo minar o evento que se desenhava.  Do lado do América, diretores diziam que o jogo não agregaria nada ao clube e que a derrota para uma agremiação da segunda divisão, ainda mais sendo ela o Rio Preto, poderia causar danos ao elenco do técnico Urubatão, que fizera um excelente primeiro turno e começara o segundo de forma trôpega.  Do lado do Rio Preto, o pavor era o de enfrentar uma equipe da primeira divisão, notadamente forte, que perdera apenas uma partida para os grandes clubes da Capital.  Pior: o jogo seria no campo do adversário.  A estatística dos confrontos também causava desconforto ao time da Avenida Anísio Haddad.  Até então, 41 derbys haviam sido disputados: ao todo, o América havia vencido 27 confrontos e o Rio Preto apenas 5.  Ocorreram também 9 empates.  Ambos os presidentes, Birigui (América) e Dalla Pria (Rio Preto), suportaram a pressão e o jogo foi confirmado.  Seria colocado em jogo o troféu Benedito Teixeira.  Uma homenagem ao velho presidente americano, considerado lendário já naquela época. 

Com os contratos fechados, todos os detalhes iniciais começaram a ser divulgados: o jogo seria no sábado, dia 7 de setembro, no estádio Mário Alves Mendonça, às quatro horas da tarde. A entrada seria gratuita.

A semana que precedeu o evento foi movimentada.  Os dois técnicos entrariam com seus elencos principais.  Nada de poupar nada nem ninguém para esse embate.  Portanto, os treinos para o jogo seguiam no ritmo considerado normal.  Como os dois clubes haviam entrado em campo apenas no dia 1º de setembro (ou seja, no domingo anterior ao derby), houve bastante tempo para recuperar jogadores contundidos.   Os times foram definidos com antecedência.  O América jogaria com: Barbiroto, Brasinha, Orlando Fumaça, Roberto e Cardoso.  Catanoce, Amado e Toninho.  Roberto Biônico, Luís Fernando Gaúcho e Mané.  Ou seja, apenas Izael e Daniel não estava selecionados: o primeiro, por opção tática.  O segundo, por contusão.   O Rio Preto entraria em campo com: Edson, Nilo, Edinho, Ronaldo e Gléber.  Roberto Neri, Candinho e Léo Araújo.  Júnior, Gilson e Toninho.

Uma das expectativas mais relevantes geradas por esse jogo seria o duelo entre três dos mais lendários centroavantes que vestiram as camisas dos dois clubes: Gilson por parte do Rio Preto, e Luís Fernando Gaúcho e Roberto Biônico por parte do América.  Gaúcho e Gilson fizeram apostas nos dias pré-derby.  Tudo para apimentar ainda mais o evento.  A aposta: quem fizesse mais gols no jogo, iria ver o oponente derrotado fazer uma doação em dinheiro para instituições de caridade da cidade.

Nem preciso dizer que eu estava lá nesse dia, junto do meu velho pai.  Na escola, no bairro, todo mundo falava desse jogo.  Não perderia isso por nada nesse mundo.  Meu primeiro derby.  Meu pai já havia providenciado os “ingressos” com antecedência pois, apesar de gratuitos, só entraria no estádio quem estivesse com esse ingresso, distribuído antecipadamente em diversos pontos comerciais.  Ao chegar ao estádio, observei rapidamente que a movimentação de pessoas ao redor das entradas do nosso velho santuário era aquela típica de jogos contra os times grandes da capital.  Toda São José do Rio Preto foi para o M.A.M. naquela tarde de sol a pino para ver o jogo. 

 

Meu ingresso do derby, guardado até hoje no meu acervo do América (fonte: arquivo Evandro Souza).

 

Às duras penas, no meio de um baita empurra-empurra, conseguimos entrar pelos portões do Cemitério da Ercília, algo que tradicionalmente fazíamos visto que morávamos ali na velha Vila Diniz.  Nesse exato momento, eu já notara algo meio errado.  Apesar de “no papel” haver um clima de paz, na prática, eu comecei a ficar preocupado ao ver que não havia separação física nenhuma entre as duas torcidas.  Pouco depois de entrarmos, quando ainda escalávamos a arquibancada do M.A.M., presenciamos a primeira briga: um grupo de torcedores do Rio Preto reclamou da falta de organização e do tumulto ali próximo do bar na entrada onde, momentos antes, havíamos passado meu pai e eu.  Um grupo de americanos estava tomando sua cerveja recostado no balcão rústico de táboas de madeira e, ao ouvir os impropérios dos torcedores rivais, partiram para a briga.  Os quatro policiais que estavam monitorando toda a movimentação tiveram grande dificuldade para conter o tumulto.  Era só o começo daquela que foi a tarde mais violenta que vivenciei dentro do, hoje, desaparecido estádio do Mecão.

O que presumo que tenham pensado os organizadores: doze anos sem derby.  Mais de vinte e cinco anos sem que as equipes se enfrentassem em um torneio oficial.  Para muitos, não era demais achar que, naquele derby amistoso, não haveria porque se preocupar com surtos de violência nas arquibancadas, visto que a velha rixa estava “há tempos adormecida”. Não poderiam estar mais redondamente enganados. Derby é derby.  Derby nunca será “apenas” um jogo amistoso. E o risco se potencializou ainda mais quando pensamos que havia doze mil pessoas no estádio naquela tarde.  E essa tese foi comprovada com sobras naquele sete de setembro...

O jogo começou com o Rio Preto com uma linha de quatro jogadores no meio-campo tentando limitar as descidas do rápido ponteiro esquerdo americano Mané e o deslocamento do habilidoso Amado pela direita.  Sem falar dos avanços do lateral Brasinha.  Deu certo.  Apesar de dominar, o América não criava chances reais de gol.  Surpreendentemente, em um rápido contra-ataque ocorrido aos dezoito minutos, após cruzamento de Nilo, Gílson subiu e deu uma cabeceada precisa no canto do goleiro Barbiroto.  Um a zero para o Rio Preto.  Para surpresa de muitos, vários rio-pretenses gritaram “gol” por todo o estádio.  Os americanos, desacostumados a verem adversários gritando “gol” ao seu lado, não se fizeram de rogados e partiram para tirar satisfações.  Foi o estopim para a primeira explosão de distúrbios por todo o estádio.  Vi pelo menos umas três brigas pipocarem pelas arquibancadas de todos os setores do estádio.  Aquilo era inédito pra mim.  E era inacreditável.  Parecia um embate entre católicos e protestantes na Irlanda.  Um pelotão de pessoas se emaranhava nessas confusões.  Braços e punhos se movimentando, gritos, chutes...  E tudo acabava tão repentinamente como havia começado.   Surreal.

Após o um a zero, o América foi pra cima do Rio Preto, sendo que a equipe esmeraldina começou a explorar ainda mais os seus perigosos contra-ataques.  Aos trinta minutos, começou um novo pandemônio: Roberto Biônico serviu Amado que fez um golaço, empatando para o Rubro.  Um a um.  Os americanos, que estavam há dez minutos ouvindo os gracejos dos rivais, partiram para o confronto.  De novo, pelos menos umas três confusões generalizadas brotaram no meio da multidão: uma no tobogã às costas da Rua Silva Jardim e duas no setor das Sociais.  Dois minutos depois, o Jacaré passa novamente na frente, com um golaço de Léo Araújo, que emendou uma pancada na gaveta do goleiro Barbiroto.   Dois a um para o time esmeraldino.  Dois gols em dois minutos que movimentaram o derby dentro de campo, mas também perigosamente fora dele.  Alguns torcedores do Rio Preto que intentavam gritar “gol” após o dois a um imposto pela esquadra esmeraldina, vendo o caos instalado, optaram por se calar.  Outros não se faziam de rogados e soltaram o “gol” a plenos pulmões.  E isso teve algumas consequências.  Após esse segundo gol, iniciou-se um corre-corre no setor das Gerais (onde estávamos eu e meu pai) que me causou profunda preocupação.  Em uma espécie de efeito “manada”, um grande grupo de torcedores saiu correndo em direção ao local onde estávamos.  Eu nunca havia visto aquilo antes.  Era gente correndo, passando por cima de outras, gente caindo.  Minha reação imediata foi também me levantar e tentar correr para longe daquele grupo que vinha para cima de nós como uma avalanche.  Fui seguro pelo colarinho da camisa pela mão firme do meu pai: “Senta aí. Deixa o povo correr”, ordenou com voz firme.  A avalanche de gente não chegou a nos alcançar.  Todos pararam e começaram a olhar para trás.  Tudo se esclareceu: uma outra briga havia começado ali e, como havia muita gente envolvida, esse pessoal tentou correr para longe da confusão.  Apesar do estádio lotado, instantaneamente abriu-se um “clarão” naquele setor.  Pelo menos dez pessoas se engalfinharam entre socos e pontapés.  Com a chegada dos policiais, tudo se normalizou. 

 

Muito bem marcado, o velho matador Luiz Fernando Gaúcho pouco produziu (fonte: Diário da Região).

 

O jogo herdou o nervosismo das arquibancadas.  As disputas dentro de campo ficaram muito mais ríspidas.  O juiz Rubens Vera Fuzaro advertia a todos de forma enérgica, talvez chamando os jogadores à responsabilidade de enxergarem que tornar a disputa dentro de campo mais violenta poderia “inspirar” ainda mais os distúrbios que ocorriam nos degraus de concreto armado quente do velho M.A.M.  Em partes, as advertências do árbitro surtiram efeito.  O América continuou pressionando, mas o primeiro tempo terminou mesmo em dois a um para o esquadrão alviverde.

O intervalo transcorreu de maneira tranquila.  Presenciei algumas discussões mais severas, todas elas tendo como causa, é claro, o jogo e seu respectivo placar, mas também o estado etílico de diversos torcedores.  Tudo, porém, sem maiores consequências (lembrando que, naqueles tempos, era permitido a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios de futebol). 

O reinício do jogo foi mais tranquilo.  O que era esperado, pois era impossível manter aquele ritmo alucinado do primeiro tempo.  A partir dos dez minutos, porém, o jogo pegou fogo de novo, com a zaga rio-pretense salvando o gol de empate em duas oportunidades.  Em um contra-ataque, foi a vez do Rio Preto perder o seu gol. Tudo isso em pouco menos de cinco minutos.  Mas o América fez jus à pressão feita no primeiro e no segundo tempo, fazendo seu gol aos 16 minutos: Mané dominou na entrada da grande área, entrou pela direita e desferiu o chute fatal com o pé direito: dois a dois.  Uma última confusão começou.  Dessa vez, foi no setor das cativas.  Não deu pra ver com clareza mas imagino que tenha envolvido algum dirigente do time do Rio Preto, pois dava para ver alguns torcedores do América com os braços esticados, tentando alcançar o sujeito que estava no reservado.  De novo, o tumulto terminou tão rapidamente como começou.

 

   

 Mané toca na saída do goleiro Edson e empata o jogo (fonte: Diário da Região).

 

Com o dois a dois, a impressão que se deu é que os dois técnicos e as equipes em campo de se deram por satisfeitas.  Os jogadores estavam todos extenuados. Começaram, então, as substituições.  O Rio Preto trocou quatro jogadores.  O América apenas dois.  Um dos substitutos do América, o ponta direita Dreifus, ainda conseguiu provocar a expulsão do jogador Nilo, visto que esse se enervara com seus dribles.  E o jogou chegou ao final, sem mais chances reais criadas para nenhum dos dois lados.

A praça de guerra na qual se transformara o estádio Mário Alves Mendonça por noventa minutos, enfim, acalmava-se. Não havia mortos, não havia feridos.  E isso foi um milagre.  O dois a dois no placar havia refletido com razoável justiça o empenho dos tradicionais rivais.  Jogadores, torcedores, policiais, todos estavam esgotados ao término do quadragésimo segundo derby da história.  Mas ainda faltava uma réstia importante de emoções: a sequência de pênaltis, cinco para cada lado.  Na primeira sequência, América e Rio Preto empataram em quatro a quatro.  Para o Rio Preto, converteram Léo Araújo, Candinho, Mitsuo e Gílson.  Para o América, converteram Catanoce, Brasinha, Amado e Mané.  Desperdiçaram as cobranças para América e Rio Preto, respectivamente, Luís Fernando Gaúcho e Ângelo.  Fez-se necessária a segunda série de pênaltis, todos alternados. Babá fez o gol para o América e o grande goleiro Barbiroto defendeu a cobrança do atacante rio-pretense Marquinho. América 5x4 Rio Preto.  Repousaria no Mário Alves Mendonça o troféu Benedito Teixeira, que foi, posteriormente, recebido pelo capitão Orlando Fumaça, sob aplausos dos presentes que ainda ficaram para ver o final da cerimônia.

Eu estava feliz demais ao final do meu primeiro derby.  “Que jogo foi esse?”, pensava eu.  Poderíamos ter vencido a partida, mas a vitória nos pênaltis ficou de bom tamanho.  A imprensa falada e escrita deu grande ênfase à surpresa maior daquele derby: o tamanho da torcida do Rio Preto.  Ficou-se a impressão ela poderia ser maior do que se pensava. Foi uma semana de intensa discussão.  Porém, o debate terminou na rodada do domingo seguinte, quando no jogo em que o Rio Preto enfrentou o Bandeirante de Birigui, apenas seiscentos pagantes compareceram ao estádio da equipe esmeraldina.

Nos vestiários, todos estavam felizes pelo evento. Luís Fernando Gaúcho pagou a aposta ao vencedor Gílson.  O presidente Benedito Teixeira estava feliz pelo sucesso do derby e pela posse, mesmo que transitória, do troféu que levava seu nome.  O técnico Válter Zaparolli comemorava o ótimo desempenho do time alviverde, o que lhe dava esperanças para a sequência do clube no campeonato paulista da segunda divisão.  O único irritado, como de costume, aliás, era o temperamental técnico Urubatão Calvo Nunes, que achava que sua equipe havia sido displicente e que não demonstrara todo o seu potencial, justamente em uma partida historicamente tão importante.

Os dois tradicionais rivais voltariam a se enfrentar com maior frequência nos anos que se sucederam. A rivalidade manteve-se intacta.  O que gradativamente diminuiu foi o interesse tanto da cidade quanto de seus respectivos torcedores.  Os motivos para que isso ocorresse são numerosos e nem vale à pena ficar enumerando-os aqui e agora.  Uma grande pena.  Pois quem viu aquele derby de 1985 tem uma certeza: esses dois tradicionais clubes mereciam sempre se enfrentar em um espetáculo com tantos adjetivos como aquele.  Tantos adjetivos, menos um: a violência. 

 

Voltar ao Topo