América Futebol Clube

América Futebol Clube - São José do Rio Preto

 
Na estrada com o América - parte 1
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
 
 

Apenas para situar o leitor: hoje é dia 9 de dezembro de 2013, um domingo.  Comecei esse texto no dia anterior e hoje, quando o estava terminando, testemunhei as cenas de selvageria ocorridas na Arena Joinville, quando torcedores do Vasco e do Atlético Paranaense entram em um violento confronto nas arquibancadas daquele estádio, durante jogo válido pela última rodada do Campeonato Brasileiro desse ano.  É óbvio que os comentários que surgiram após o ocorrido são os mesmos (e diversos) de sempre, e percorrem um caminho longo que vão de um extremo (“da burrice”) a outro (“da realidade”).  Nem me preocupo mais com comentários preconceituosos generalizando todos os torcedores que fazem parte de uma torcida organizada porque, sinceramente, seria como discutir o sexo dos anjos.  Portanto, acho oportuno esse texto nesse momento.  Porque a intenção do mesmo é contar os “causos” que amigos e torcedores do nosso América de São José do Rio Preto viveram pelo interior de São Paulo, acompanhando nosso Mecão durante diversos campeonatos.  E, obviamente, mostrar que o que move muitas torcidas e torcedores é a paixão pura e simples por seu time e pelo futebol.  Ou seja, há, sim, esperanças de dias melhores. 

Causo 1:

Jogo: Independente 1x1 América. 

Competição: Campeonato Paulista da Série A3;

Local: calçada do lado de fora do estádio “Pradão”;

Data: manhã de domingo, dia 27 de janeiro de 2013.

Quando a tabela da série A3 desse ano foi divulgada, fiquei feliz pois o primeiro jogo do Mecão seria “do lado de casa”: na belíssima Limeira, distante vinte e cinco quilômetros de Piracicaba, cidade onde atualmente resido, contra o Independente.  Rapidamente, os amigos que torcem para o América, e que estão ligados em todas as notícias envolvendo os times do interior de São Paulo, já cortaram o meu barato: “O campo dos caras está interditado, Evandro.  Não vai poder entrar ninguém”.  Haja água para jogar no meu chopp.   Por problemas estruturais no estádio, se não me engano era algo citado no laudo das instalações elétricas do estádio, os Bombeiros e, por consequência, a Federação Paulista de Futebol não liberaram a utilização do velho palco. 

Conforme o dia do jogo foi se aproximando, a vontade de assistir ao Mecão também foi crescendo.  Nunca tinha ido no campo do Independente e pensava cá com meus botões: “Será que não há algum lugar ali nos arredores do campo de onde eu consiga ver o jogo?”.  Pesquisei no Google, vi fotos do estádio e não consegui chegar a nenhuma conclusão.  “Quem sabe se eu for com a camisa do América, alguém se sensibilize e permita que eu veja o jogo do lado de dentro do estádio.”, pensei.  Por via das dúvidas, pensei em algo improvável: levar comigo a escada que tenho aqui em casa.  Quem sabe ela não seria útil?  

No domingo de manhã, não me fiz de rogado: coloquei minha camisa, peguei a escada que tenho aqui em casa, acomodei-a dentro do meu carro e me pus a caminho de Limeira.  Eu tinha fé de que haveria algum muro circundando o estádio baixo o suficiente de onde eu, de cima da minha escada, conseguiria ver o jogo.

 

Eu, meu carro... e minha escada (fonte: arquivo pessoal).

 

Chegando ao estádio, uma feira livre ao lado do “Pradão”, como é conhecido o estádio do Independente, me convidava para experimentar o famoso pastel de uma de suas barracas (dica do meu amigo Lucas, torcedor “de sofá” da Inter de Limeira).  Fome aplacada, iniciei minha busca por um lugar para assistir ao jogo.  Não sem antes eu ver o pessoal de uma torcida organizada do Independente e abordá-los para bater um papo.  Todos muito solícitos e educados, pediram desculpas pela interdição do estádio (como se fossem eles os culpados, coitados) e ficaram abismados por “alguém vir de tão longe para ver o América, mesmo sabendo que o estádio estava interditado”.  Pausa para uma confissão: eu acabei não contando que morava em Piracicaba.

 

 Pessoal da torcida do Independente me recebeu muito bem (fonte: arquivo pessoal).

 

No lado de trás de um dos gols, achei um muro razoavelmente baixo.  Estacionei meu carro do seu lado, tirei a escada de dentro, escalei-a e vi que, dali, daria para ver ao menos as jogadas do time que estivesse atacando daquele lado.  Os seguranças que estavam ali atrás do gol me viram e começaram a rir.  Não os censuro: eu faria o mesmo.  Azar: um fiscal da Federação Paulista de Futebol também me viu ali amoitado e informou o caso a uma dupla de policiais.  Os dois vieram em minha direção e ordenaram:

“O senhor não pode fazer isso.  Desça daí”. 

Tentei argumentar que não estava tocando no muro, que não estava dentro do estádio e que, portanto, não estaria fazendo nada de errado. 

“Vou repetir: o senhor tem que descer daí”. 

Havia um tom ao mesmo tempo cordial e ameaçador na fala daquele oficial que, provavelmente contrariado por estar ali naquele domingo de manhã, me impediria também de ter qualquer tipo de alegria de cima da minha escada.  Desci e guardei meu apetrecho. 

 

Visão “privilegiada” que eu tinha de cima da minha escada (fonte: arquivo pessoal).

 

Entrei, resignado, no meu carro e fui tentar sintonizar alguma rádio que estivesse transmitindo o jogo.  Achei.  E o Independente já estava metendo 1x0.  A cabeça “inchou” na hora.  Fui dar uma volta para espairecer.  Quem sabe houvesse outra solução que me permitisse assistir ao jogo?  Eis que, de longe, vejo um pontilhão que interliga duas avenidas largas que passam ao lado do estádio.  Resolvi arriscar.  Passando por cima dele, notei que daria pra ver tranquilamente metade do gramado do estádio.  Estacionei o carro em frente a uma loja que estava fechada naquela manhã de domingo e fui para o pontilhão a pé.  Começando a caminhada por cima dele, notei que não havia calçada alguma naquele elevado.  E uma placa de trânsito entregava o porque disso: “Proibido tráfego de pedestres”. 

“Ah, pelo amor de Deus”, praguejei. 

Segui meu plano mesmo assim.  Parei no meio do dito cujo, recostei-me no parapeito e fiquei vendo o jogo, com os carros passando ali nas minhas costas.  O trânsito não estava movimentado e aquilo que eu estava fazendo nem era algo assim tão arriscado.  De longe, eu vigiava meu carro de um lado e via os ataques do Independente do outro.  De repente, sinto um veículo parando atrás de mim:

“O senhor poderia fazer o favor de deixar esse pontilhão?”. 

Olho para trás e vejo uma viatura da Polícia Militar.  Por sorte, não era o mesmo policial que me expulsara junto com a minha escada instantes antes.  Nesse caso, nem pensei em argumentar.  Eu estava errado.  Voltei para o meu carro, peguei-o e voltei para frente do estádio. 

 

  

Camarote VIP no pontilhão próximo ao "Pradão" de onde fui expulso (fonte: arquivo pessoal).

 

Incrédulo, conformei-me em assistir ao jogo através do vão entre as “folhas” de um dos portões do estádio.  Dali, dava para se enxergar uma pequena faixa do gramado, inclusive à risca da grande área.  Por sorte era a área onde estava o ataque americano. E foi dali que “vi” o gol de empate americano: o lateral Samuel deu um passe que imagino ter sido preciso.  Sim, porque o passe eu vi mas não vi a conclusão do atacante Bill.  Só vi o Samuel e mais alguns jogadores comemorando.  Deduzi que havia sido gol e comemorei com entusiasmo incontido ali do lado de fora do “Pradão”. 

 

 

Vão em um dos portões do estádio “Pradão” de onde vi o gol de

empate do América (fonte: arquivo pessoal).

 

O 1x1 ficou de ótimo tamanho.  Iniciar o campeonato não perdendo fora de caso era algo muito bom.  Voltei para casa realizado.  Feliz mesmo.  O problema foi explicar para os vizinhos de condomínio que diabos eu estava fazendo com aquela escada dentro do carro em um domingo de manhã.  “Fui ver um jogo do América com ela”.  A cara de interrogação de todos foi a diversão derradeira daquela maravilhosa manhã de domingo.  Tem coisas que gente normal não entende. 

 

Causo 2:

Jogo: São Carlos 1x1 América 

Competição: Campeonato Paulista da Série A2;

Local: Estádio “Luisão” e algum hospital na cidade de São Carlos;

Data: final de tarde de uma quarta-feira, dia 15 de fevereiro de 2012.

São Carlos não era assim tão longe de Piracicaba (cidade onde eu residia até então).  E não era também tão longe de São José do Rio Preto.  Logo, não foi difícil imaginar que eu e alguns amigos da Amor e Lealdade (torcida organizada que acompanha o América desde 2008) estaríamos presentes para acompanhar esse jogo válido pela sétima rodada do campeonato da série A2 daquele ano. 

Entrando no estádio, encontro o pessoal que havia vindo de minha terra natal.  Eles haviam chegado antes de mim e já haviam se instalado na área reservada à nossa torcida.  Ao cumprimenta-los um-a-um, noto que alguns deles faziam uma estranha cara de dor.  Intrigado, pergunto:

“Que diabos está acontecendo?  Vocês estão todos doentes?”

A resposta dada pelo amigo Renato foi hilária:

“Você não foi revistado?”.

Frase dita, aponta com o indicador para a região da sua virilha. Eu não contive a gargalhada ao notar que parte dos colegas estavam com a mão naquela mesma região, demonstrando o desconforto causado pela revista feita, digamos, com “excesso” de força por um dos policiais militares presente na entrada do estádio. 

Me recompondo do ataque de risos que me acometeu, noto que meu primo Marcelo Berti não estava com eles.  Perguntando por ele, escuto outra resposta hilária:

“Adivinha?  O Róbson passou mal e o Berti foi leva-lo ao hospital”, informou-me o colega Rocha.

Róbson, também conhecido como “Róbi Gol” (por conta dos gols que fazia nos campeonatos de futebol de salão em um passado já distante), era uma espécie de “O homem doença” do nosso círculo de amizade.  “Hipocondríaco” não define com precisão como ele é.   A grande diversão dele e do Renato é discutir a eficácia e as indicações de cada um dos remédios que ambos tomam para cada uma das setenta e sete enfermidades que, somadas, os afligem. 

Liguei para o meu primo:

“Onde você está? Tá tudo bem aí com o Róbi Gol?”

“Acho que sim.  Ele tá gemendo aqui, mas a enfermeira já aplicou uma injeção nele”. 

Ao fundo, dava para ouvir “Eu vou morrer, Berti.  Eu vou morrer, Berti”.  Meu primo, que ainda conversava comigo no telefone, me pede licença por alguns instantes.  Consigo ouvi-lo também ao fundo: “Não, Róbi, você não vai morrer, não.  Sou eu que vou me matar.  Fica tranquilo”. 

 

Pessoal da torcida que ficou “de saco cheio” naquela noite em São Carlos. Do lado direito, sentado,

Róbi Gol em “momento de crise” (fonte: arquivo pessoal).

 

Passado todo o quiproquó, viemos saber posteriormente que o Róbson teve uma crise decorrente de uma Síndrome do Pânico, mazela essa da qual ele não sabia que estava sofrendo.  Grave, sem dúvida.  Mas ele procurou ajuda profissional e, hoje, está conosco, feliz e com saúde.  O que não nos impede de dar aquela “zoada” básica que só amigos de longa data podem fazê-lo, principalmente quando vamos viajar para algum jogo fora de São José do Rio Preto:

“Tá tudo certo para a viagem?  Pegaram as bandeiras, faixas e documentos?  Beleza!!  E alguém já acionou o SAMU para o Róbson?”.  

 

 
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